Caso Moïse indica ampliação dos tipos de linchamento praticados no Brasil, diz sociólogo
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- Shin Suzuki
- Da BBC News Brasil em São Paulo
Crédito, Arquivo pessoal
Moïse pertencia à etnia Hema e chegou ao Brasil em 2011 fugindo de conflitos em seu país
O brutal assassinato do imigrante congolês Moïse Kabagambe por um grupo no Rio de Janeiro volta a colocar em atenção um tipo de violência que é constante no Brasil: o linchamento.
As características próprias desse caso “sugere um alargamento dos motivos de linchamentos no Brasil, não mais apenas crimes efetivos ou crimes imaginados, mas também motivos que não correspondem ao que a tradição popular até há alguns anos considerava motivo para linchar, como cobrar o débito por um trabalho realizado”, diz o sociólogo José de Souza Martins, que estuda há 30 anos esse tipo de violência no país e é autor do livro Linchamentos – A Justiça Popular no Brasil.
Moïse, de 24 anos, foi espancado até a morte no dia 24 de janeiro, depois de cobrar o pagamento de diárias atrasadas no quiosque onde trabalhava na praia da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio.
O sociólogo afirma que continua “monitorando, diariamente, as ocorrências de linchamentos no Brasil. Hoje, há no país ao menos um linchamento ou tentativa por dia. No geral, dois ou três”.
“Linchamentos têm ocorrido em vários países na América Latina, África e Ásia. Mesmo nos Estados Unidos, ainda que em escala muito pequena, ressurgiram os linchamentos. Praticamente em todas essas áreas os linchamentos decorreram com frequência da violação de valores e costumes da tradição, morais ou religiosos. No Brasil não tem sido diferente. Crenças populares tradicionais podem ser mais acentuadas como fator em uns países, como em Moçambique. Aqui temos tido casos do tipo, como foi o da dona de casa de Guarujá, suspeita de raptar crianças para magia negra. O que era completamente falso.”
Em 2014, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, foi alvo de um boato em uma página do Facebook dizendo a dona de casa sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de magia negra em Guarujá, litoral paulista. A história era falsa e Fabiane, inocente. A família dela processa a rede social em uma ação por danos morais.
Souza Martins explica que faz um monitoramento diário através do Google em que constata dois a três linchamentos por dia, “mas o número pode ser maior”, diz.
“Seria impossível fazer a pesquisa com base numa amostra de registros policiais, pois raramente há menção a linchamentos. Alguns jornais não definem linchamentos como homicídios ou tentativas de homicídio. Examino cada caso das notícias recebidas, faço uma análise das características do evento e verifico se posso defini-lo ou não, sociologicamente, como linchamento. Fiz um estudo específico da qualidade do noticiário.”
Ele afirma que no decorrer de 30 anos de análise sobre linchamentos, os locais com mais casos têm mudado. Na época da publicação de seu livro (2015), os três primeiros eram São Paulo, Bahia e Rio. Mas já havia indícios dos deslocamentos das ocorrências para o Meio-Norte e o Norte.
“Hoje, o maior número ocorre em Manaus, mas tem sido significativo no Rio de Janeiro. O deslocamento das predominâncias não quer dizer que os linchamentos tenham deixado de ocorrer onde ocorriam majoritariamente”.
Em julho de 2019 o jornal A Crítica, de Manaus, registrava o crescimento desse tipo de violência na capital amazonense e citava que o caso mais recente era de um adolescente de 16 anos assassinado a pauladas suspeito de assaltar um ônibus na zona norte da cidade.
Para Souza Martins, o caso de Moïse mostra um contexto de trabalho para o linchamento do trabalhador congolês. “A debilitação da relação laboral em decorrência da reforma trabalhista torna mais difícil a defesa dos direitos dos que estão à margem das formas propriamente legais e contratuais de trabalho”.
Jacqueline Sinhoretto, professora de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública , diz que “o pano de fundo no caso do Moïse é uma violência que aparece num contexto de trabalho precário que envolve tanto ele quanto seus assassinos”.
Ela diz que é preciso questionar se o vínculo de alguns quiosques no Rio com seus empregados envolve segurança privada.
“De dia eles [os suspeitos da morte] trabalham como garçons, como intermediários de uma troca comercial e de noite permanecem no local como seguranças, à noite. Uma situação que me parece muito próxima de trabalho análogo ao escravo ou no mínimo de um trabalho em condições ilegais. Ou o tipo de trabalho que a gente chamaria de trabalho indecente, de uma exploração excessiva do trabalho”.
A socióloga afirma que falta responder algumas perguntas: “Eles têm cobertura para fazer essa segurança por expedientes violentos? Alguém está dando cobertura ou instruções para eles agirem de forma violenta? Quer dizer, há algo além da precariedade do vínculo: que trabalho é esse?”.
A ampliação de contextos em que ocorre esse tipo de violência complica um cenário com dificuldades para mensurar o tamanho do problema. Os estudos mais importantes sobre linchamentos com números vão até o começo dos anos 2010.
Crédito, Google
Quiosque onde Moïse foi morto; segundo relatos, estabelecimento continuou funcionando normalmente depois
O jornal O Globo fez um levantamento que apontou 12 linchamentos só em praias do Rio em um período de três semanas em janeiro deste ano.
“Infelizmente a gente não tem estatísticas oficiais desse tipo de caso, eles podem ser registrados dependendo do desfecho como um homicídio, como uma lesão corporal, como tentativa de homicídio, então a gente depende principalmente das pesquisas e as pesquisas usam como fonte a imprensa. Então depende de levantamentos que são bastante custosos e demandam muito tempo” analisa Ariadne Natal, pesquisadora do Peace Research Institute Frankfurt.
Ela analisou 500 casos de linchamento na região metropolitana de São Paulo entre 1980 e 2009.
“A questão é menos o que mudou nos linchamentos e mais o que não muda no Brasil, porque esse tipo de evento indica uma desumanização enorme, um descaso com a vida humana que é colocada como descartável de maneira muito evidente”, afirma Ariadne Natal.
“Os linchamentos apontam quem são as pessoas descartáveis na nossa sociedade e justamente por eles acontecerem às vistas de todo mundo, por ter participações de pessoas que não são previamente organizadas, existe um acordo tácito sobre quem são as pessoas matáveis.”
Segundo o sociólogo Souza Martins, “o número de participantes nos linchamentos sugere que essa prática tem aprovação disseminada, não só na participação direta, mas também na omissão dos que sabem de sua ocorrência ou os presenciam”.
Crédito, Arquivo pessoal
Parentes e amigos de Moïse Kabamgabe fizeram protesto na Barra da Tijuca pedindo Justiça
“É verdade que os linchamentos são interrompidos porque alguma testemunha alerta a polícia. Ou seja, se numericamente há muitos aprovadores de linchamentos, estruturalmente há também, em muitas das situações, pessoas que agem para que as instituições sejam mobilizadas e deem aos casos o enquadramento e o tratamento que a lei prevê.”
A pesquisadora Natal fala da falta de uma política nacional de segurança pública: “A gente mal engatinhou na construção de uma, são políticas que não tem continuidade entre um governo e outro, são planos que são feitos e que não são levados a cabo”.
Ela diz que “a gente tem uma carência de direcionamento, para que serve essa determinada instituição, como ela vai ser empregada. Não basta só a existência dessas instituições”.
“É quase como se deixassem para ser resolvido pelos próprios cidadãos.”
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