‘É daqui, pra frente’: os moradores de rua que estão conseguindo trabalho em São Paulo
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- Thais Carrança
- Da BBC News Brasil em São Paulo
Crédito, Vivi Torrico
Celso Custódio Vieira, 49 anos, trabalha atualmente como cozinheiro num restaurante
“Para a gente estar numa situação assim, algo deu de errado na vida da gente”, diz Celso Custódio Vieira, de 49 anos e morador de uma ocupação na Avenida Alcântara Machado, uma das vias que compõem a Radial Leste, nesta mesma região da capital paulista.
“Sou cozinheiro, formado em Senac e já trabalhei em muitos restaurantes, inclusive de cozinha francesa e italiana”, conta Vieira, que é paranaense, mas vive em São Paulo há dez anos.
“Já vai fazer quatro anos que fiquei em situação de rua. Aí veio a pandemia e agravou mais as condições de trabalho, eu acabei ficando de vez desempregado, então por isso moro na ocupação, porque sem trabalho não tem como estar pagando um aluguel.”
Em maio deste ano, no entanto, o cozinheiro viu sua sorte começar a mudar.
Após enfrentar diversas dificuldades para conseguir emprego morando na ocupação, por não poder comprovar residência, Vieira foi selecionado pelo projeto Trampolink, que está ajudando pessoas em situação de rua e moradores de ocupações da cidade de São Paulo a conseguir trabalho.
E isso num momento particularmente desafiador da economia, com a taxa de desemprego tendo se mantido no nível recorde de 14,7% em abril, com 14,8 milhões de desocupados e outros 6 milhões de desalentados, que são as pessoas que desistiram de procurar trabalho.
Agora, ele está há mais de um mês trabalhando como cozinheiro em um restaurante vegano e tem a esperança de conseguir em breve pagar um aluguel, para deixar a ocupação.
“Tenho agora que me reabilitar, me afirmar no trabalho, isso é o principal”, afirma Vieira.
“Com o dinheiro, quero abrir uma continha no banco, para ver se não volto ao zero de novo. É daqui, para a frente, um degrau por vez. Meu primeiro objetivo é sair da ocupação e começar a andar com minhas próprias pernas. Com um endereço, tudo vai começar a melhorar.”
Crédito, Divulgação
Marmitas veganas (sem alimentos de origem animal) distribuídas pelo projeto Solidariedade Vegan
Solidariedade Vegan e distribuição de marmitas
O projeto que ajudou o cozinheiro a conseguir um emprego e voltar a ter esperança de organizar sua vida teve início em abril deste ano, por iniciativa de três amigos: Vivi Torrico, de 48 anos; Paula Luna, de 36 anos; e Paulo Escobar, de 43 anos.
Nascida na Argentina, mas vivendo há 25 anos no Brasil, Vivi é voluntária desde 2019 do projeto Solidariedade Vegan, que distribui marmitas veganas (sem alimentos de origem animal) em vários pontos da cidade, em parceria com outros grupos como a ONG (organização não-governamental) Pimp My Carroça, que trabalha com catadores de materiais recicláveis.
“A partir do Solidariedade Vegan, nós tivemos várias experiências com pessoas da rua”, conta Vivi, cuja formação é de professora de educação especial, especializada em adultos com mais de 50 anos, com dificuldades motoras e mentais.
Desde 2017, ela é proprietária do restaurante vegano Central Panelaço, no bairro do Bixiga, região central de São Paulo, junto ao seu marido – o ex-VJ da MTV e cantor João Gordo, da banda punk Ratos de Porão.
“Uma dessas pessoas com quem tivemos contato foi o Marquinhos, um cara que veio caminhando de Curitiba e estava numa situação deplorável no começo da pandemia”, lembra Vivi.
“Com a ajuda das assistentes sociais e a força que a gente foi dando, ele saiu da rua para um abrigo e conseguiu um emprego. Ele continua até hoje nesse trabalho, morando em Osasco, onde ele agora tem um quartinho que é dele – já não depende mais do abrigo”, conta ela.
“Foi uma experiência muito boa e, com isso, a gente viu que tem várias pessoas que querem mudar e precisam de uma oportunidade “, afirma.
Vivi destaca, porém, que não são todos que conseguem se adaptar à mudança.
“Nem todos eles conseguem segurar a pressão de um emprego, de uma rotina. Às vezes são muitas mudanças em pouco tempo, para pessoas que estão fora do mercado de trabalho e na rua há anos, dormindo em locais inapropriados”, diz Vivi. “Então voltar a ter uma rotina, uma cama, um trabalho, é meio complexo mesmo.”
Crédito, Ligia Toledo
No Cadastro Único, mantido pelo Ministério da Cidadania, constavam em abril 31.237 famílias sem teto na capital paulista
Pandemia e o projeto Trampolink
Paula, que é publicitária de formação, mas passou a trabalhar como bordadeira depois da maternidade, se envolveu na pandemia com a distribuição de cestas básicas para comunidades de baixa renda. Das cestas básicas, passou às marmitas, e foi assim que conheceu Vivi.
“Na pandemia, percebemos um aumento da população em situação de rua e de pessoas em maior vulnerabilidade”, conta Paula. “A situação se tornou ainda mais grave neste ano, em que muitos deles perderam o auxílio emergencial. Então há muitos recém-chegados.”
A última edição do Censo da População em Situação de Rua de São Paulo foi realizada pela Prefeitura em 2019 e contou então 11.693 pessoas acolhidas em albergues públicos e outras 12.651 dormindo nas ruas, num total de 24.344 pessoas consideradas em situação de rua.
Já no Cadastro Único para Programas Sociais, mantido pelo Ministério da Cidadania, constavam em abril deste ano 31.237 famílias sem teto na capital paulista.
Diante desse cenário, e após quatro experiências bem-sucedidas em ajudar pessoas em situação de rua a arranjarem empregos, os três amigos resolveram transformar a experiência num projeto sistematizado.
Crédito, Victor Angelo
Paula Luna (de máscara preta) e Vivi Torrico (de máscara vermelha), em reunião com o padre Júlio Lancelotti na Paróquia São Miguel Arcanjo
O nome Trampolink foi ideia do cantor João Gordo.
“Quando contei a ideia, ele falou: ‘Vocês vão fazer o link'”, conta Vivi, referindo-se ao trabalho de ligar candidatos e empregadores. “E aí juntou com ‘trampo’, que é a forma de falar do pessoal de rua, e tem esse trocadilho com ‘trampolim’, porque essas pessoas vão dar um salto e, nesse salto, a gente vai junto: acompanhamos na entrevista, entregamos o kit de roupas para os primeiros tempos, kit de higiene. A gente pega na mão e se joga com eles.”
A iniciativa recebe indicações de potenciais candidatos de organizações que trabalham com pessoas em situação de rua, como a Paróquia São Miguel Arcanjo, do padre Júlio Lancellotti. Essas pessoas são então entrevistadas, para elaboração de um currículo, com todas as informações de cursos e experiências profissionais.
Crédito, Reprodução/Instagram
Candidatos cadastrados pelo projeto Trampolink
“É um trabalho árduo. Por exemplo, a maioria das pessoas que temos como candidatos não têm telefone – nem celular, nem fixo. Então o contato é pessoalmente”, conta Vivi.
Em maio, foram 19 inscritos e 76% deles conseguiram emprego fixo ou temporário. Em meados de junho, os candidatos já eram 30 e o número vai crescendo diariamente.
“Para aceitarmos as indicações, temos uma série de condições: que a pessoa esteja de fato disposta, que dê uma maneirada nos vícios, para que o trabalho não seja perdido”, acrescenta.
Paula e Vivi contam, porém, que as experiências bem-sucedidas compensam a frustração daquelas que não dão tão certo.
“Teve, por exemplo o Stanley, uma indicação do padre [Júlio Lancelotti]. Ele é haitiano, mal fala português, mas já está há mais de um mês trabalhando”, relata Vivi. “Com o primeiro salário, ele comprou uma luminária e deu de presente ao padre. Isso foi muito simbólico e emocionante, o cara levando um pouco de luz para quem deu uma luz a ele.”
‘Rebeldia’ e inovação
Para dar continuidade à iniciativa, os três amigos estão realizando uma vaquinha online. O objetivo é cobrir uma remuneração simbólica pelo trabalho realizado por eles, além do desenvolvimento de um site próprio e a compra dos kits de roupas, higiene e de equipamentos de segurança, como as máscaras, fundamentais para o trabalho em tempos de pandemia.
A meta de arrecadação para os primeiros meses, em que os gastos serão maiores, é de R$ 12 mil, mas depois, eles acreditam que o projeto poderá ser mantido com R$ 6 mil por mês.
Crédito, Reprodução/Twitter
Em uma rede social, a cartunista Laerte recomenda às pessoas que conheçam o projeto Trampolink
“O maior retorno que recebemos são os depoimentos emocionantes das pessoas que ajudamos”, diz Paula. “Uma das candidatas, a Thais, nos falou sobre como era bom ela poder estar num lugar sem precisar se esconder, podendo deixar claro que ela morava numa ocupação, sem precisar ter vergonha – porque o preconceito é gigantesco.”
Segundo as duas amigas, o projeto Trampolink é de uma “rebeldia” e uma inovação ímpares.
“Estamos vivendo numa fase muito complicada, em que a falta de emprego é geral e estamos lidando com pessoas que têm dificuldades ainda maiores de conseguirem se recolocar”, diz Paula. “Recolocá-los é mostrar que eles podem, que eles têm a oportunidade de mudar.”
“Em um momento em que o país tem mais de 14 milhões de desempregados, a gente vem com a ideia utópica de procurar emprego para pessoas que moram na rua, invisíveis e completamente abandonadas”, diz Vivi.
“No começo, ouvimos: ‘Isso não vai dar certo’, mas tivemos um retorno bombástico logo de início, e continuamos tendo. A partir do momento em que você coloca uma gota de esperança numa pessoa, e mostra para essa pessoa que você está acreditando nela, já está dando certo.”
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