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Madame Satã, o transformista visto como herói da contracultura e vilão pelo governo Bolsonaro

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  • Daniel Salomão Roque
  • De São Paulo para a BBC News Brasil

Crédito, Biblioteca Nacional

Legenda da foto,

Manchete sobre a participação de João Francisco numa fuga penitenciária em 1955. O transformista nutria grande admiração por Carmen Miranda e procurava imitá-la sempre que possível

Ao abaixar a cabeça, João Francisco dos Santos, então com 28 anos, viu duas poças se avolumarem no chão de seu quarto — de um lado, as gotas de sangue pingando através de um rasgo em sua sobrancelha direita; do outro, as lágrimas que lhe escorriam pelos cantos dos olhos. Não demorou muito para que ambos os fluidos se misturassem numa poça maior.

“A minha pessoa estava feliz demais naquela noite. Eu devia ter desconfiado”, recordaria quatro décadas depois, em depoimento ao escritor Sylvan Paezzo (1938-2000). “Já tinha apanhado tanto da danada da vida, que pensei ter chegado a minha boa hora. Aquela demagogia de que não há mal que sempre dure e que depois da tempestade vem a bonança.”

Corria o ano de 1928, e João Francisco acreditava ter realizado o sonho da ascensão social por meio da arte. Em troca de 15 mil réis semanais, vinha se apresentando como travesti num teatro da Praça Tiradentes, centro do Rio de Janeiro. A insegurança com seus dotes performáticos havia desaparecido há poucas horas, quando o mestre de cerimônias o anunciara como “a sensacional e maravilhosa Mulata do Balacochê”. Ostentando uma saia vermelha e tranças nos cabelos, havia sambado, cantado e recebido aplausos.

Voltara para casa a pé, à uma da manhã, certo de que o contratariam para novas peças. Ainda não havia jantado, e por isso resolveu fazer escala num botequim vazio, ao lado do sobrado onde morava, na Lapa, epicentro da vida noturna carioca. Queria comer um bife.

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