A luta dos guardiões de ninhos para proteger o ‘pássaro dos deuses’ no sul da África
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Crédito, Universal Images Group/Getty Images
O habitat do calau-gigante estende-se da África do Sul até Uganda e a República Democrática do Congo
Era uma tarde poeirenta no final de uma longa estação seca no Zimbábue e o agricultor Sofaya Ndlovu estava sentado fora de casa, ao sol.
A cinquenta metros dali, entre a terra limpa da sua propriedade e um pequeno koppie (um morro na área plana) com bordas de granito, um pássaro preto esfarrapado com face vermelha enrugada, longos cílios e grande pescoço vermelho desfilava sobre os tufos de grama.
Supervisionando o gramado em busca de insetos, cada passo da ave parecia deliberado e até calculado; seu corpo estava inclinado para a frente, os olhos concentrados no chão.
O pássaro – da altura de um bebê humano – parou, ciscou a terra com suas fortes garras, capturou um gafanhoto com seu bico preto e acelerou em seguida para alcançar duas outras aves à procura de alimento por perto. O gafanhoto ainda estava preso em seu bico; a ave, um macho, tinha um filhote para alimentar.
“Eu agora os ouço todos os dias”, conta Ndlovu, um homem magro e musculoso com braços fortes, apontando com o queixo para os pássaros que fizeram ninho perto da sua casa. “Eles estão cantando muito; logo vai chover”, diz ele.
Aqui nas Colinas de Matobo, no sudoeste do Zimbábue (reconhecidas como Patrimônio Cultural Mundial pela Unesco), a maior parte das famílias é de agricultores de subsistência, e a chuva é um elemento fundamental para sua sobrevivência.
Aqui, esses grandes pássaros pretos, os calaus-gigantes (Bucorvus leadbeateri), são considerados os anunciadores das chuvas.
Amahundundu é o nome dos pássaros para os povos Ndebele e Kalanga das Colinas de Matobo, que representa o canto baixo e trovejante das aves, que pode ser ouvido a até 5 km de distância. Eles são tão importantes para essas comunidades que, quando um calau-gigante morre, os moradores mais idosos se reúnem e oferecem ao pássaro o mesmo funeral tradicional oferecido aos seres humanos.
Eles acreditam que matar um ihundundu (“i” designa a ave no singular e “ama”, no plural) deixa a pessoa louca. Ela enfurece os deuses, a chuva irá faltar e a pessoa poderá ser banida da sua comunidade pelo resto da vida.
Os calaus-gigantes vivem em grupos familiares e podem ser encontrados em campos abertos na savana e nas pradarias desde a África do Sul até Uganda e a República Democrática do Congo.
Mas, como o território natural da espécie foi reduzido devido ao desenvolvimento, à agricultura e à pecuária excessiva, sua população desabou – chegando a um ponto em que a União Internacional para a Conservação da Natureza agora classifica esses superpredadores como vulneráveis na África subsaariana e em risco de extinção na África do Sul e na Namíbia.
Crédito, Getty Images
Embora a vida selvagem prospere na proteção do Parque Nacional das Colinas de Matobo, muitos calaus-gigantes preferem fazer seus ninhos perto das aldeias e fazendas
Na região onde vive Sofaya Ndlovu, entretanto, vem se desdobrando uma história diferente: a população de calaus-gigantes está crescendo.
Em outras partes do sul da África, os pássaros, que podem viver 70 anos, procriam com sucesso apenas a cada seis a nove anos. Mas nas Colinas de Matobo, os filhotes são gerados sem problemas a cada um ou dois anos.
O seu sucesso se deve, em grande parte, às relações estreitas entre os povos Ndebele e Kalanda da região e os amahundundu. Essas comunidades vêm reverenciando os pássaros há gerações e agora também recorrem à ciência cidadã para protegê-los.
Pessoas como Ndlovu estão ajudando os pesquisadores coletando dados para melhor compreender e proteger não apenas a espécie, mas também o seu significado cultural.
“Os habitantes do distrito de Matobo reverenciam o pássaro a ponto de equipará-lo ao ser humano”, afirma o conservacionista zimbabuano Evans Mabiza, que vem pesquisando os calaus-gigantes de Matobo há 14 anos.
“Muitas culturas africanas acreditam que ele é o pássaro das chuvas – alguns os chamam de pássaro do trovão – mas tem havido muita deterioração cultural em alguns lugares ao longo dos anos. Nosso medo é que, um dia, isso possa acontecer em Matobo e, por isso, queremos descobrir quais crenças existem hoje – e estamos felizes por ver que elas ainda estão muito fortes por aqui, mesmo entre as crianças”, afirma ele.
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A região das Colinas de Matobo, no Zimbábue, abriga formações rochosas de granito e uma população crescente de calaus-gigantes
A bióloga conservacionista Lucy Kemp também tem interesse especial pelos calaus-gigantes. Na década de 1970, os pais dela foram pioneiros na pesquisa das aves no Parque Nacional Kruger, na África do Sul, e ela continua trabalhando para proteger a espécie.
“É importante proteger esses pássaros porque eles não são apenas superpredadores, mas possuem também essa enorme importância cultural; existem muitas canções, histórias e lendas associadas a essa espécie. Se eles se forem, nós perderemos parte não só do nosso ecossistema, mas também dos nossos corações e almas”, afirma ela.
Foi apenas em 2007 que começaram as pesquisas formais sobre o calau-gigante nas Colinas de Matobo.
Não havia extensos registros das aves no Zimbábue até então e, para entender melhor a espécie, Evans Mabiza e os conservacionistas Elspeth Perry e Bruce McDonald decidiram concentrar-se em Matobo, a apenas 35 km da sua base de pesquisas em Bulawayo, a segunda maior cidade do Zimbábue.
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Evans Mabiza e seus colegas formaram clubes de conservação nas escolas locais como forma de apresentar iniciativas de ciência cidadã às comunidades
“Naquela época, nós queríamos apenas coletar dados sobre suas características e hábitos de procriação. Não tínhamos ideia da relação das pessoas com os calaus-gigantes e ficamos surpresos quando encontramos resistência ao perguntar sobre os pássaros”, explica Mabiza, que agora chefia o Fundo para as Crianças e Conservação da Natureza do Zimbábue e continua a reunir informações culturais e científicas para o Projeto Calau-Gigante do Fundo.
“As pessoas ficaram muito preocupadas com a nossa motivação e, somente depois que nos reunimos com os líderes locais, as pessoas começaram a compartilhar informações sobre as aves”, relembra ele.
Quando começaram a trabalhar nas Colinas de Matobo, Mabiza e seus colegas formaram clubes de conservação nas escolas.
“Fizemos isso para poder trabalhar com as crianças sobre ‘ciência cidadã’, pois elas encontrariam as aves quando fossem para a escola e era fundamental para nós que elas relatassem o comportamento dos pássaros que presenciassem”, conta ele.
“Depois que estabelecemos nosso relacionamento com as crianças, os adultos também começaram a confiar em nós”, afirma.
Mabiza comenta agora que as pesquisas incluem o aspecto científico e a perspectiva cultural, bem como a forma em que eles se complementam.
“O nosso relacionamento cresceu tanto que agora as pessoas me chamam para fornecer informações sobre um calau-gigante e, se algum ‘estrangeiro’ pergunta à comunidade pelos calaus-gigantes, eu recebo um telefonema. Eles valorizam o nosso trabalho para garantir a continuidade da espécie”, ressalta Mabiza.
O incomum sobre os calaus-gigantes é que, em vez de viverem dentro do Parque Nacional de Matobo, que fica próximo, as aves se estabeleceram na terra da comunidade e fazem seus ninhos perto das propriedades – porque a atividade humana criou um ambiente favorável para os pássaros.
As pessoas espantam os macacos e babuínos da sua produção, eliminando da área os predadores que atacam os ovos e filhotes dos calaus-gigantes.
As áreas agrícolas atraem roedores, os roedores atraem cobras – e os calaus-gigantes se alimentam de ambos. A criação de gado mantém a grama baixa nas proximidades, fornecendo condições de savana ideais para a procriação das aves.
E os calaus-gigantes também são protegidos pelas crenças tradicionais. “Amahundundu são pássaros dos deuses”, afirma Moyo, uma agricultora de fala delicada que tem um pequeno grupo de calaus-gigantes em ninhos nas pedras perto da sua casa desde 1982.
“Nós nos consideramos abençoados por termos ninhos de amahundundu por aqui”, diz ela.
A família de Moyo é uma das 17 famílias do distrito de Matobo que têm calaus-gigantes procriando perto das suas propriedades e auxiliam Mabiza mantendo registros do comportamento e dos hábitos de procriação das aves.
Mabiza as chama de “guardiãs de ninhos”. Esses guardiões de ninhos acompanham detalhes como quando os calaus-gigantes começam seus cantos de acasalamento, quando são vistos os primeiros filhotes, o que eles estão comendo e qual a sua dinâmica de grupo.
O trabalho de Mabiza é realizado principalmente com recursos próprios e ele consegue visitar as colinas apenas duas ou três vezes por mês – por isso, as informações coletadas pelos guardiões têm valor excepcional para o seu trabalho.
“É uma honra muito grande e recebo com humildade o esforço das comunidades para garantir que o projeto seja bem sucedido”, afirma Mabiza.
“Sinto que as Colinas de Matobo algum dia serão um centro de pesquisa para toda a África, onde as pessoas poderão vir para entender como podemos proteger essa magnífica espécie, que carrega tanto valor ecológico e cultural”, ressalta.
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Chamados de ‘os anunciadores das chuvas’, os calaus-gigantes possuem um canto trovejante baixo que pode ser ouvido a até 5 km de distância
À medida que a estação chuvosa se aproxima, os cantos crescentes dos amahundundu começam a se espalhar pela paisagem. Em volta das Colinas de Matobo, os guardiões de ninhos registram nos seus cadernos: os amahundundu estão chamando.
“Ultimamente eles vêm cantando cada vez mais. Belas canções, eles cantam canções muito bonitas”, afirma o agricultor Ndlovu, novamente gesticulando para o grupo de calaus-gigantes que vem fazendo ninhos atrás da sua propriedade desde antes que ele nascesse.
“Quando eles cantam assim, nós suspeitamos de algo: suspeitamos que haverá chuvas muito boas”, conta ele.
Os pássaros das chuvas disseram: tudo ficará bem.
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